Depoimento de Camilo Viana
Um sonho que se tornou realidade, e deve servir de exemplo para os brasileiros, que parecem estar completamente perdidos, sem saber o que fazer em relação à integração da Amazônia brasileira, condenada ao total desaparecimento caso continue a acelerada devastação, incineração, saque, biopirataria, inteiramente sem controle.
Ao que se saiba, os projetos mirabolantes apresentados para acelerar o desenvolvimento da região, esperança de todo um povo, e aguardada há séculos, vêm dando, como se diz, com os burros n’água.
Do jeito que as coisas estão ocorrendo tudo leva a crer que o principal obstáculo que vem sendo removido a ferro e fogo, é a própria floresta. Porém, nem tudo está perdido e o exemplo vem da própria Amazônia, como fato concreto. Tal como o Bosque Sonho do Carneiro situado no município de Marituba, na área metropolitana de Belém, no Estado do Pará.
O cidadão que dá o nome a essa experiência, digna de registro, e que deve servir de modelo a todos os que continuam deitados em berço esplêndido, esperando que a fada madrinha venha resolver seus problemas, não vem deixando por menos e tem realizado um sonho já ha longo tempo. Carneiro, ou mais precisamente, Orlando Carneiro, paraoara da gema, resolveu enfrentar o problema, numa região onde o boi sempre teve, e continua tendo, prioridade, e a derrubada da floresta, para abrir capineiras, vem sendo praticamente a regra geral.
Os que lutam em defesa da preservação da floresta são considerados, às vezes, visionários e vítimas das críticas, as mais contundentes possíveis. Carneiro teve o privilégio de poder contar com técnicos de primeira linha a começar pelo ambientalista Sebastião Sena, mais conhecido como “Gaúcho”, que dedicou parte da sua vida à produção de mudas e sementes, assim como com técnicos da Embrapa, do Museu Paraense Emílio Goeldi, da SOPREN e da própria Sagri.
O precursor, Carneiro, tornou-se uma espécie de caixeiro viajante, percorrendo diferentes pontos da Amazônia e do território nacional, e mesmo fora dele, adquirindo e coletando essências florestais da região Amazônica e algumas espécies raras adaptadas ao nosso país. Não é exagero dizer que, na sua faina, andou mais de duas décadas, de todos os meios de transporte que se possa imaginar: se uma mudinha estava lá no meio de um riacho, e o acesso era canoa, lá ia a canoa levando o Carneiro, com seus quase dois metros e peso correspondente, fundura adentro. Teco-teco? Carro? Boeing? Trilha? Nenhum obstáculo impedia o ambientalista. Sua coleção, cuidadosamente plantada, atinge um total de mais de cerca de 500 exemplares variados, contadas apenas árvores e palmeiras, tendo entre elas verdadeiras raridades, algumas em processo de extinção, e raramente encontrados na região. É cada vez maior o número de interessados no projeto, que tem, além dos vegetais plantados, uma cartilha cuidadosamente elaborada, com a descrição e finalidade de cada uma das espécies existentes, num trabalho de pesquisa de grande fôlego, havendo mesmo interesse da própria mídia local, que volta e meia está publicando reportagens e notícias sobre o bosque.
Passo adiante foi dado, desta vez para plantio de um número maior de palmeiras, (pelo espaço disponível, cada espécie teria apenas um exemplar) com prioridade para as amazônicas e as de paisagismo, porque são em grande variedade de espécies, e importantes para compor um azulejo de preservação, através do fornecimento de suas sementes. Carneiro conta somente com recursos próprios para a concretização do seu objetivo. O mais importante na sua luta é a formação de uma cultura conservacionista, ainda muito escassa entre nós, e a criação um “banco genético” que agrupa espécies de diversas utilidades, com ênfase para as ameaçadas, algumas já se multiplicando na área do plantio do Bosque, o que cria um tênue fio de esperança para o futuro deserto da Amazônia, - este será o futuro da nossa região se as coisas continuarem como estão, e se o descaso e a embromação vencerem na sua luta contra os homens de boa vontade.
Camilo Viana é médico, e o mais antigo e combativo preservacionista da Amazônia. Presidente da SOPREN, Sociedade de Preservação dos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia, ao longo de sua vida tem atuado em diversas questões ambientais da Amazônia, sempre lutando pela preservação da grande floresta e pelo respeito aos povos da região.
Camilo Viana é médico, e o mais antigo e combativo preservacionista da Amazônia
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